Desde a época da escola, eu e outros dois amigos compartilhamos uma ideia: um dia teríamos nosso próprio negócio.
Queríamos ganhar dinheiro, conquistar nossa independência e, principalmente, parar de trabalhar para os nossos patrões.
Aliás, éramos um pouco menos elegantes naquela época. Costumávamos chamar nossos patrões de “porcos”. A ideia era deixar de trabalhar para os porcos e, finalmente, nos tornarmos os patrões.
Era um plano simples. Pelo menos na nossa cabeça.
O problema é que, embora tivéssemos muita vontade de empreender, não fazíamos muita ideia de como construir um negócio.
E foi assim que começamos uma sequência de tentativas, erros e projetos que nunca chegaram muito longe.
Três amigos, muitas ideias e poucos resultados
Praticamente toda semana surgia uma ideia diferente.
Já tentamos importar produtos para revender, como perfumes e celulares. Também tentamos montar uma loja virtual de roupas.
Essa última experiência, inclusive, me custou aproximadamente R$ 3 mil.
Um dos meus amigos já havia participado de um negócio parecido, em sociedade com outra pessoa. O empreendimento não tinha dado certo, mas ele trouxe uma proposta que parecia interessante.
Segundo ele, já existia um público interessado. Bastava comprarmos as roupas, porque ele sabia como vendê-las.
Eu confiei.
Fomos até o Brás, em São Paulo, compramos as mercadorias e começamos a operação.
O resultado foi bem diferente do que imaginávamos.
Parte do dinheiro das vendas acabou sendo consumida pela própria operação. Algumas peças foram vendidas fiado, e nunca mais recebemos por elas. Outras simplesmente ficaram encalhadas.
No fim, acabei usando ou doando várias das roupas que não conseguimos vender.
Perdi meu investimento.
Mas o mais interessante é que, olhando hoje para aquela experiência, percebo que o erro não estava apenas nas roupas que compramos ou nas vendas que não aconteceram.
Eu havia investido dinheiro em um negócio no qual nem sequer acreditava de verdade.
A proposta não nasceu de uma convicção minha sobre aquele mercado. Eu não conhecia o público, não entendia de moda e não tinha informações suficientes para avaliar se existia uma oportunidade real.
Entrei porque confiava em um amigo e queria que nós três construíssemos alguma coisa juntos.
Hoje consigo enxergar um erro ainda mais básico: compramos os produtos primeiro e só depois fomos procurar pessoas interessadas em comprá-los.
Deveríamos ter feito justamente o contrário.
Foi uma lição cara. Mas, curiosamente, eu ainda demoraria bastante para entender o que havia por trás dela.
Quando uma ideia deixa de ser sua
Em outra ocasião, fui eu quem apareceu com uma proposta.
Queria criar um blog e um canal no YouTube para falar sobre negócios e empreendedorismo.
Minha ideia era produzir conteúdo para pessoas parecidas conosco: gente que queria empreender, mas ainda não tinha conhecimento suficiente para tomar boas decisões.
Afinal, nós mesmos éramos exemplos disso.
Havíamos cometido erros que talvez pudessem ser evitados com um pouco mais de informação.
O projeto poderia ser uma oportunidade de aprender enquanto compartilhávamos o que estávamos descobrindo.
Meus amigos gostaram de parte da proposta.
Mas aconteceu uma coisa curiosa: o canal sobre empreendedorismo acabou se transformando, durante nossas conversas, em uma ideia de canal de games.
Nada contra canais de games. Simplesmente não era aquilo que eu queria construir.
O blog, pelo menos, continuava nos planos.
Combinamos que todos estudaríamos e contribuiríamos para a produção dos artigos. Até criamos um grupo específico para discutir as decisões do projeto.
Eu comecei a trabalhar.
Investi dinheiro, dediquei tempo ao desenvolvimento e coloquei o site no ar.
Mas o envolvimento dos meus amigos não aconteceu como eu esperava.
Aos poucos, ficou claro que aquele projeto não tinha a mesma importância para todos nós.
E ele acabou não indo para frente.
O canal de games também nunca saiu do papel.
Vale esclarecer que aquele blog não era o OryctesPro. Tinha outro nome e uma proposta diferente, embora também abordasse assuntos relacionados a negócios.
Olhando para trás, não acho justo colocar toda a responsabilidade nos meus amigos.
Afinal, a ideia era minha.
Eu queria construir aquilo. Eles, aparentemente, não tinham o mesmo interesse.
E talvez o meu erro tenha sido esperar que tivessem.
A matemática que só funcionava na minha cabeça
Durante muito tempo, tive uma maneira bastante peculiar de enxergar nossas tentativas de empreender.
Éramos três amigos. Portanto, quando surgisse uma boa ideia, cada um deveria contribuir com 33,33% do esforço necessário.
Somando os três, teríamos praticamente 100%.
Pronto. Negócio funcionando.
Só que existe um problema nessa matemática.
O comprometimento de uma pessoa não nasce automaticamente porque ela aceitou participar de um projeto.
Alguém pode concordar com uma ideia porque ela parece interessante. Pode dizer sim porque não quer decepcionar um amigo. Ou pode simplesmente imaginar que terá tempo e disposição para contribuir, sem realmente avaliar o que isso significa.
E isso não faz dessa pessoa alguém ruim.
Nós temos interesses, prioridades, necessidades e momentos de vida diferentes.
O que parece uma oportunidade extraordinária para mim pode não fazer o menor sentido para outra pessoa.
O problema aparece quando confundimos amizade com alinhamento de interesses.
É possível gostar muito de alguém, confiar nessa pessoa e, ainda assim, não formar uma boa sociedade com ela.
Eu demorei para entender essa diferença.
Uma nova ideia, mas uma resposta diferente
Recentemente, um desses amigos apareceu com outra proposta.
Dessa vez, a ideia era comprar carros de pessoas que precisassem vender rapidamente, negociar um preço mais baixo e depois revendê-los com mais calma, tentando obter lucro na diferença.
Não é uma ideia necessariamente ruim.
Pode existir uma oportunidade nesse mercado, desde que a operação seja bem planejada, os riscos sejam compreendidos e exista capital suficiente.
Mas, quando ele me apresentou a proposta, comecei a olhar para a minha realidade.
Eu não tenho dinheiro disponível para investir nesse negócio.
Também não tenho tempo para me dedicar à operação.
E, principalmente, não tenho interesse suficiente nesse projeto para assumir os riscos envolvidos.
Então respondi que não participaria.
Expliquei que não tinha tempo nem recursos financeiros disponíveis.
O que era verdade.
Mas havia uma parte que eu não disse: eu simplesmente não acreditava naquela oportunidade para mim.
E, pela primeira vez, isso não me pareceu um problema.
Não precisava participar apenas porque a proposta tinha vindo de um amigo.
Não precisava concordar para preservar aquele antigo sonho de construirmos algo juntos.
Foi nesse momento que comecei a conectar várias situações do passado.
Talvez eu estivesse começando pelo lugar errado
Durante anos, minha lógica foi a seguinte: primeiro reuniríamos os três amigos, depois encontraríamos uma ideia e, finalmente, construiríamos um negócio juntos.
Mas por que precisava ser assim?
Por que eu precisava de uma sociedade antes mesmo de ter um negócio?
Por que uma ideia minha precisava ser aprovada por outras duas pessoas para que eu me sentisse confortável em executá-la?
Foi quando percebi algo que, de certa forma, já estava acontecendo na minha vida.
Hoje tenho o OryctesPro.
Um projeto que comecei sozinho.
Sou eu quem define os assuntos, planeja os conteúdos, toma as decisões e investe tempo para fazer o blog evoluir.
Não preciso convocar uma reunião para decidir os próximos passos.
Não preciso esperar que alguém encontre tempo para contribuir.
E, principalmente, não preciso convencer outras pessoas a acreditarem em algo que faz sentido para mim.
Isso não significa que o OryctesPro vá dar certo.
Pode funcionar. Pode não funcionar.
Ainda existem muitas coisas que preciso aprender, testar e melhorar.
Mas existe uma diferença importante em relação às minhas experiências anteriores.
Agora a responsabilidade é minha.
Se o projeto não avançar porque deixei de fazer o que precisava ser feito, não poderei colocar a culpa em um amigo que não escreveu um artigo ou em um sócio que não se dedicou como eu esperava.
Terei que reconhecer minhas próprias decisões, limitações e erros.
E, sinceramente, prefiro que seja assim.
Não porque trabalhar sozinho seja necessariamente melhor, mas porque finalmente estou construindo algo no qual acredito, sem depender do entusiasmo de outras pessoas para começar.
Isso significa que não quero mais ter sócios?
De maneira nenhuma.
Inclusive, não descarto a possibilidade de, no futuro, um desses meus dois amigos participar do OryctesPro.
Mas hoje eu faria isso de maneira diferente.
Não convidaria alguém simplesmente porque somos amigos ou porque sempre tivemos o sonho de empreender juntos.
Primeiro, precisaria existir um negócio com uma direção clara.
Depois, seria necessário entender por que aquela pessoa deveria participar, quais contribuições poderia trazer e se realmente teria interesse, disponibilidade e comprometimento.
Uma sociedade precisa fazer sentido para todos os envolvidos.
E não apenas no discurso.
É preciso que as pessoas estejam dispostas a colocar em prática aquilo com que se comprometeram.
Também entendo que existem negócios que precisam de sócios desde o início, seja por falta de capital, pela necessidade de conhecimentos complementares ou pelas exigências da própria operação.
Não existe uma regra universal.
Mas, no meu caso, percebi que estava usando a ideia de sociedade quase como uma condição para começar.
Quando, na verdade, eu poderia simplesmente começar.
O negócio não precisa nascer de uma sociedade
Existe um ditado popular que diz que cachorro com muitos donos morre de fome.
A lógica é simples: quando todo mundo acredita que outra pessoa vai cuidar de alguma coisa, existe o risco de ninguém assumir verdadeiramente essa responsabilidade.
Acho que várias das nossas tentativas de empreender sofreram com uma versão desse problema.
Tínhamos três pessoas, muitas ideias e a expectativa de que o esforço coletivo faria tudo acontecer.
Mas não tínhamos necessariamente três pessoas igualmente comprometidas com o mesmo objetivo.
Hoje prefiro pensar de outra maneira.
Se tenho uma ideia na qual acredito, que posso executar com os recursos disponíveis e cujos riscos estou disposto a assumir, não preciso esperar por uma sociedade para começar.
Posso construir alguma coisa, entender melhor o mercado, aprender com os erros e avaliar os resultados.
Se, em algum momento, a presença de um sócio fizer sentido, ótimo.
Mas quero que essa decisão aconteça porque o negócio precisa daquela pessoa e porque ela também acredita no projeto.
Não apenas porque sempre sonhamos em ter uma empresa juntos.
Talvez o OryctesPro dê certo. Talvez seja mais uma tentativa na minha história.
Ainda não sei.
O que sei é que, desta vez, não estou esperando que outras duas pessoas acreditem na minha ideia para descobrir até onde consigo levá-la.
E, para mim, essa já é uma mudança importante.